Espaço dos ex-alunos

Não se descobre a vida acadêmica antes de viver a vida acadêmica. Como qualquer outro de 18 anos, entrei para o curso de Direito sem uma certeza muito exata – sequer metafísica – do que de fato aconteceria ali. A Unesp é uma universidade renomada, e, isso, em certo sentido, manteve-me calmo. Estar entre as melhores faculdades de direito não significa, diferente do que o título possa sugerir, que não nos deparamos, continuamente, com professores que nos faziam mais um desfavor do que nos educavam. No entanto, mesmo nessas horas, aprendemos: ainda que por contraste. É preciso ser justo, entretanto, e registrar talvez o maior ganho da Universidade: os bons professores e a gentileza dos funcionários, cujo o afeto e a disponibilidade foram, também, constitutivos da minha formação – o pessoal da limpeza que me dava bom dia – e faziam dele um bom dia! -, bem como os funcionário da biblioteca que aqueceram minha sede de pegar livros! Foi na faculdade que fiz amigos excelentes e colegas respeitáveis. Foi lá que, enfim, redescobri, dia a dia, a vida acadêmica e resignifiquei a minha escolha, deslocando-a do campo da dúvida e realojando para o lugar que é seu por direito: a paixão.

Georges Abboud – XIX Turma


Anos incríveis… dourados, não sei, pelo que me evoca a lembrança ouso dizer que foi  mais. Tempo em que nos sentíamos sendo forjados por forças maiores, pelo senhor do futuro, para aquisição de ferramentas capazes de nos tornar verdadeiramente humanos. Nosso deleite era se embriagar do outro.

Tempo de igualdade normatizada mas sem ninguém para hastear bandeiras pessoais, a preocupação era com o coletivo.

Jamais antes conhecera um ambiente em que questionar era uma prática natural e diária. O que será feito a respeito da moradia estudantil insuficiente? Por qual motivo professores não cumprem seus horários? E além, muito além, exigíamos respostas satisfatórias, que quando não eram obtidas davam causa ao enfrentamento – a tomada da faculdade, a queima de boneco representativo de um professor que nomeava substituto para dar suas aulas, são exemplos.

A vida corria em uma doce rotina de aulas extraordinárias que tratavam de fatos que acabara de acontecer – massacre no Carandiru, impeachment do Presidente, antecedido pela discussão do cabimento de desobediência civil face ao sequestro dos valores da poupança; festas no DA ao som de Caetano, Gil, Chico, Raul, Geraldo Vandré, Belchior e toda a boa MPB, com exceção do sábado, no qual a música era a brega. Durante a semana as festas eram nas reps., algumas famosas e com reservas antecipadas, conforme a preferência dos mestres da noite, que conosco atravessavam a madrugada afora, num partilhar de  histórias pessoais, filosofia, poesia e claro, do sentimento a todos alimenta, amor.

Neste cenário aprendi que a medida de um homem, que pode ter defeitos e vícios, muitos decorrentes da tristeza represada no peito por se ver tantas vezes impotente diante de uma realidade tão injusta, é o que vai por sua alma, lhe atormenta, lhe faz sair da inércia, o gesto advindo das entranhas, um grito, um basta, um querer irreprimível, o sentimento capaz de dar vida ao ato transformador.

Pessoalmente, foi pela lufada filosófica da universidade que passei a assumir meu cabelo crespo e tristemente ganhei o apelido de globeleza, mas me mantive firme e hoje fico feliz de ver que fiz muitos discípulos, em tempos de bandeira da igualdade hasteada.

Ousava também na maneira de me trajar pois, diferente de hoje,  a moda era muito padronizada e andar em trajes que evocavam os hippies já era um grande diferencial. Essa era minha ousadia.

Algo ainda, que me é muito caro, aprendi, a não me constranger com nenhum ato que atente contra minha dignidade, apesar de ter sofrido alguns mesmo dentro da universidade; que toda usurpação advém da incapacidade de alguém em compreender a beleza da diversidade, e isto não me diz respeito e sim à incapacidade do outro, por má formação ou cegueira, o que nem sempre tem solução

Sara Lúcia de Freitas Osório Bononi – XI Turma